Relato

Depois de várias reuniões com céu nublado, tivemos a sorte de fazer a observação de aves no Jardim Botânico em um dia ensolarado e relativamente quente. Guiados pelo Glayson Bencke, 12 associados participaram da atividade, que ocorreu das 8 às 9 horas e iniciou com a procura de uma coruja-orelhuda que havia sido observada recentemente no mato perto da sede administrativa da FZB-RS, no lado norte. A coruja não foi localizada, ficando então o ponto alto da observação com uma fêmea de martim-pescador-pequeno, visualizada no lago mais próximo da sede.

Helena Backes abriu a reunião apresentando a pauta do dia, pedindo aos novos associados presentes que se apresentassem e relembrando que o COA-POA decidiu subsidiar o valor do estacionamento da FZB para os associados nos dias de reunião. Também mencionou a existência da biblioteca do COA-POA, enriquecida pelos exemplares da revista Atualidades Ornitológicas, que foi recentemente assinada. Conversou-se sobre a criação de uma forma de circular os livros e revistas entre os associados, usando o site ou email para isso. Ficou combinado que a diretoria irá definir um processo e informar aos associados.

Como uma das revistas recebidas continha a publicação do artigo produzido por alguns dos associados sobre o primeiro registro de Picumnus cirratus (pica-pau-anão-barrado) no Rio Grande do Sul, o artigo foi mostrado e as revistas circularam entre os presentes.

Também foi novamente informado que todos os sócios do COA que pagarem a anuidade de 2015 receberão gratuitamente o cartaz das aves da Lagoa do Peixe com fotografias de Paulo Fenalti, produzido dentro do Projeto RS-Biodiversidade e ofertado ao COA pela FZB.

Na sequência, o sócio Kleber Pinto apresentou o resumo das observações do dia, informando o número de aves observadas, 23, e comentando que era menor do que em outras observações efetuadas no mesmo local, devido principalmente à época do ano.

Seguindo a pauta definida para o dia, o Glayson fez um breve relato da saída ao Parque Estadual de Espigão Alto, mostrando imagens feitas pelos associados e comentando que a segunda visita do COA-POA ao Parque rendeu excelentes observações, repetindo o feito do ano anterior de incluir uma nova espécie para a unidade de conservação, a jaçanã. Informou também que foram registradas 128 espécies, das quais 100 no interior do parque.

O sócio Marco Aurélio Antunes tomou a palavra na sequência, apresentando seu relato de associado, que teve como tema A Fauna da Península Valdés, visitada por ele em outubro de 2014. Foi informado o roteiro da viagem e projetadas imagens das diferentes espécies de aves, mamíferos e répteis observados. Também foi apresentado um quadro com as espécies que ocorrem em cada mês do ano, mostrando que o período de setembro a dezembro é o mais propício para observação da riqueza da fauna local. Marco Aurélio também sugeriu alguns livros para quem quer saber mais sobre a fauna da região ou se preparar para uma viagem para lá.

Foi feito um intervalo e logo após o Glayson fez a apresentação do principal palestrante da reunião, o biólogo Dante Meller, que discorreu sobre o Parque Estadual do Turvo: asas à imaginação. Dante, ex-gestor do parque, falou sobre sua experiência no local, desde o tempo em que era estudante de biologia e iniciou seu trabalho de graduação em 2008 sobre aves de rapina.

O palestrante destacou a importância do Parque, que foi o primeiro a ser criado no estado, em 1947. Com 17.500 hectares é o maior parque estadual, sendo o último remanescente da Mata do Alto Uruguai e refúgio de espécies ameaçadas, como onça-pintada, anta e harpia. Sobre a última, Dante contou seu emocionante encontro com a espécie, que não tinha ocorrência registrada no estado desde 1970. Glayson salientou que os únicos registros atuais de harpia na Mata Atlântica eram no sul da Bahia e Espírito Santo.

O número de espécies registradas no parque ainda está pendente de revisão, mas Dante estima que são em torno de 332, e ele já avistou 300 delas. Além disso, várias espécies de aves, como o cauré, o gavião-de-asa-larga e o macuru, têm seu único registro no estado feito no Parque.

Dante também apresentou um desafio ornitológico para o grupo, com uma lista de aves que provavelmente ocorrem no Parque, que foram vistas ou ouvidas mas não documentadas, gerando bastante expectativa para a saída do COA ao Turvo em outubro desse ano.

Sobre seu período como gestor, falou sobre a importância da educação ambiental, para a qual não pôde dar a atenção que gostaria em função das demandas administrativas e de fiscalização, com a entrada constante de caçadores e pescadores, que realizam as atividades ilegais no Parque muitas vezes ameaçando e até trocando tiros com os guarda-parques.

Enfatizou que a principal ameaça vem das duas barragens previstas para o Rio Uruguai, a de Itapiranga, prevista rio acima, e a de Panambi, rio abaixo. Ambas são grande ameaça para o Parque, que já sofre o impacto da hidrelétrica existente, que ao regular a vazão de água de acordo com as demandas energéticas, aumenta e diminui a altura do rio de forma brusca, alterando as condições do rio para as espécies que ali habitam. Foi mencionado que o COA-POA, em visita ao parque, constatou in loco um dos problemas, que é o aprisionamento de peixes nas pedras quando o nível da água baixa muito rapidamente.

Além do impacto na fauna, a atual barragem também afeta a principal atração turística do Parque, o Salto do Yucumã, que simplesmente não fica visível quando a barragem libera as comportas. Com as novas barragens, esse patrimônio natural iria praticamente desaparecer. Foi comentado que manter um fluxo de visitantes que tenha interesse na natureza, seja no Salto, seja na apreciação da fauna e flora, é uma das maneiras de proteger o Parque e que o COA-POA se propõe a ser mais ativo em ações que ajudem a proteger a riqueza natural do nosso estado.

Foi perguntado como havia sido o processo de saída dele como gestor do Parque e ele informou que foi uma exoneração sumária, que um outro funcionário assumiu interinamente e que há grande preocupação com o pouco interesse da atual administração com esse nosso patrimônio. Glayson mencionou a possibilidade de ser concedido à administração pela iniciativa privada, o que, na sua opinião, não é necessariamente um problema, mas que se não for feito corretamente, com um contrato que regre o uso e proteja o Parque adequadamente, pode haver uma grande risco. Houve um consenso de que o COA-POA deve ficar atento ao assunto para poder se posicionar quando for necessário. Foi aventada, inclusive, a participação do grupo no Conselho Consultivo do Parque, mas a princípio isso não é possível sem a formalização do grupo como uma entidade constituída.

A palestra finalizou com a apresentação de uma excelente foto de um gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) com uma cotia nas garras. Dante contou que fez a foto recentemente, que foi uma grande surpresa para ele ver o gavião levantar voo e pousar numa árvore a mais de 5 metros do solo com um animal com até três vezes o seu peso. Os slides da palestra, incluindo essa foto e de outras espécies encontradas no Parque, foram disponibilizadas pelo palestrante e já estão disponíveis no link abaixo.

Finalizando a reunião, foi feito convite, prontamente aceito, para que Dante se junte a nós durante a visita ao Parque em outubro e divulgado o calendário das próximas atividades, com destaque para a visita ao Parque do Espinilho, de 4 a 7 de junho.

 

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Fotos